sexta-feira, 16 de maio de 2014

“Meu encanto precisa da saudade...”



“Meu encanto precisa da saudade...”


“Era uma vez uma menina que amava um pássaro encantado que sempre a visitava e lhe contava estórias, o que a fazia imensamente feliz.
Mas chegava um momento que o pássaro dizia: “Tenho que ir”. 
A menina chorava porque amava o pássaro e não queria que ele partisse. 
“Menina”, disse-lhe o pássaro, “aprenda o que vou lhe ensinar: eu só sou encantado por causa da ausência. É na ausência que a saudade vivi.
E a saudade é um perfume...e que torna encantados todos os que o sentem. 
Quem tem saudades esta amando.
Tenho que partir para que a saudade exista e para que continue a amá-la e você continue a me amar...” E partia.

A menina, sofrendo a dor da saudade maquinou um plano: quando o pássaro voltou e lhe contou estórias e foi dormir, ela o prendeu em uma gaiola de prata, dizendo: 

“Agora ele será meu para sempre.” 
Mas não foi isso que aconteceu.
O pássaro, sem poder voar, perdeu as cores, perdeu o brilho, perdeu a alegria, não tinha mais estórias para contar. 
E o amor acabou. 
Levou um tempo para que a menina percebesse que ela não amava aquele pássaro engaiolado. 
O pássaro que ela amava era o pássaro que voava livre e voltava quando queria e ela soltou o pássaro que voou para longe.”


Rubem Alves in
A menina e o pássaro encantado

terça-feira, 13 de maio de 2014

Dói-me a Vida aos Poucos


 Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. 
A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu sofrimento.
Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça.


 Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga. 
 Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu.
Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata.

Hoje, dia catorze de Março, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto. 
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora. 
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. 
Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. 
Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se. 

Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto.
Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas. 
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. 
Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no «Livro do Desassossego». 

Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto. 

 Fernando Pessoa, in 'Carta a Mário de Sá-Carneiro (1915) ' 

A LENDA DO JOÃO-DE-BARRO



 Contam os índios que, há muito tempo, numa tribo do Sul do Brasil, um jovem se apaixonou por uma moça de grande beleza. 
 Melhor dizendo: apaixonaram-se. 
 Jaebé, o moço, foi pedi-la em casamento. O pai dela então perguntou:
- Que provas podes dar da tua força para pretenderes a mão da moça mais formosa da tribo? - As provas do meu amor! - respondeu o jovem.
 O velho gostou da resposta, mas achou o jovem muito atrevido. Então disse:
- O último pretendente de minha filha falou que ficaria cinco dias em jejum e morreu no quarto dia.
- Eu digo que ficarei nove dias em jejum e não morrerei. Toda a tribo se espantou com a coragem do jovem apaixonado. O velho ordenou que se desse início à prova. Enrolaram o rapaz num pesado couro de anta e ficaram, dia e noite, vigiando para que ele não saísse nem fosse alimentado. 
 A jovem apaixonada chorou e implorou à deusa Lua que o mantivesse vivo, para ser o seu amor. O tempo foi passando, passando ... e certa manhã, a filha pediu ao pai:
- Já se passaram cinco dias. Não o deixe morrer! O velho respondeu:
- Ele é arrogante. Falou nas forças do amor. Vamos ver o que acontece. 
 E esperou até a última hora do novo dia e então ordenou: 
- Vamos ver o que resta do arrogante Jaebé. Quando abriram o couro da anta, Jaebé saltou ligeiro. Seus olhos brilhavam e seu sorriso tinha uma luz mágica. Sua pele estava limpa e cheirava a perfume de amêndoa. Na aldeia todos se espantaram, e ficaram mais estupefatos ainda quando o jovem, ao ver a sua amada, pôs-se a cantar como um pássaro, enquanto o seu corpo, aos poucos, ia se transformando em um corpo de pássaro. E exatamente naquele momento os raios do luar tocaram a jovem apaixonada, que também se viu transformada em pássaro.
 Então, ela saiu voando atrás de Jaebé, que a chamava para a floresta, onde desapareceram para sempre. Contam os índios que foi assim que nasceu o pássaro joão-de-barro. A prova do grande amor que uniu esses dois jovens está no cuidado com que constroem a sua casa e protegem os seus filhotes. 
 E os homens amam o João-de-barro, porque lembram da força de Jaebé: uma força que vinha do amor e foi maior que a morte! 

 O pássaro João de Barro: São monógamos e os casais permanecem unidos por longo tempo. Defendem seu território ao longo de todo o ano, tanto a fêmea como o macho, mas podem pernoitar fora de sua área.3 Têm o hábito de cantar juntos à entrada do ninho, agitando suas asas.

 O casal se reveza na construção do ninho, uma estrutura em formato de forno, levam aproximadamente 18 dias para construir o ninho 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

COMO VOAR ATÉ O CORAÇÃO DO HOMEM?

POEMA VIGÉSIMO NONO

As cotovias mandaram chamar a Palavra,

 e disseram-lhe: 
Gostaríamos de voar contigo!
 Por quê?, disse a Palavra,
 se podeis livremente voar  no azul do céu, 
sobre o mar, e também sobre  bosques e searas, poisar até no cume frio  das altíssimas montanhas.
 Pois sim, concordou uma delas,
 mas como faremos  para voar, como tu, 


até ao coração do homem?

 E a todas a Palavra respondeu:
 Não, amigas, 
não sou eu  que voo até ele. 
É o seu coração que sempre me procura
 para oferecer-me a capacidade e a alegria de voar
 para lá do azul do céu e para lá da imensidão do mar,
 muito para além dos bosques, das searas,
 e mais alto, ainda mais alto 
que o cume frio  das montanhas.
 Sem nunca chegar ao fim  de nada,
 mas ao início  de tudo.

 Joaquim Pessoa

sábado, 10 de maio de 2014

DIA DAS MÃES "Uma proposta de reflexão"

O TEMPO E OS  AMORES

A gente vive os dias, acreditando que o tempo é eterno.
Não estamos errados.
O tempo é eterno.
O que não é eterno é o tempo que temos junto aos seres com os quais convivemos.
Seres amados, ou não....

E por amá-los ou não, é que precisamos ter a exata noção do quanto esse tempo é limitado, mesmo que em nossa "inocência ou ignorância temporal", julgamos que teremos uma vida longa ao lado de cada um deles.

Deixamos que esses dias valiosos se escorram tal qual areia na ampulheta, despreocupados, irresponsavelmente iludidos.

Se nossa convivência com algum deles não são baseados no amor, é preciso dia a dia um exercício de tolerância, paciência, indulgência, perdão, que pode, com certeza nos levar ao exercício do amor. 
De início acontece meio tímido, meio frio, não é fácil o toque.
Mas se buscarmos o melhor de cada um, dia a dia, com a noção exata de que o tempo corre e nós demoramos a pensar, tomar decisões e agir, com certeza, estaremos no caminho certo, e o tempo de convivência reservado a nós com estes seres serão bem aproveitados. 
Chegará então um dia, que tocar será prazeroso, que abraçar será natural, sorrir junto será uma dádiva.
E poderemos então dizer que foram amados por nós e nós por eles.
E se essa convivência for, com seres já amados por nós, a afinidade existe naturalmente.
Mas é preciso cuidado, pois mesmo o amor mais puro, exige de nós atenção para que se mantenha vivo.
Dia a dia uma rega de carinho e atenção.
Há o tempo de viver com os amores.
E haverá o tempo da saudade.
O tempo é eterno e o tempo é curto.
E só depois que o tempo com esses amores se acaba, é que temos a noção do quanto tudo foi rápido e pouco.
Aí vem a sensação de que podíamos ter feito melhor, aproveitado melhor esse tempo.
Então...para esse dia das mães, uma reflexão sobre o tempo.
Para os filhos...que pensem em suas mães. No tempo que convivem com elas. 
Para as mães, que pensem em suas próprias mães, em seu tempo como filhas.
Sempre pensando no valor que tem o tempo.
Em mente a duração do tempo.
E que o tempo é eterno, mas termina com a saudade de um ser amado que parte para outra vida.


Irani Martins
09/05/2014

terça-feira, 6 de maio de 2014

REFLEXÕES... AS DORES DA ALMA


Dores da Alma

 O que arde em meu peito,
Semelhante saudade,
Tal  dor refletida,
No espelho da alma?
O que traz aos meus olhos,
Esta lágrima solitária,
E dentro do peito,
O soluço contido?
Por que esta vontade,
De me por deitada,
Deixando que a vida,
Flua sozinha e eu quietinha?
 
Por que o abraço, mesmo apertado,
Não traz o alívio,
Há tanto esperado?
Porque a solidão, tal qual uma prisão,
Me deixa distante,
Me traz  isolada,
Me faz  abalada?
Por que esta angústia,
De que nem porque,
Que arrasta meu corpo,
Tal qual um boneco,
      
       De Alma sem eco?
O verso sem rima,
Sem cor ou alegria,
Será companhia prá  alma vazia?
O choro contido,
Será convertido em riso,
Sorriso,
Levando prá sempre,
A tristeza presente?
Aqui estou eu, boneco sem eco,
Pedindo... implorando,
A Deus, meu amigo,


Que traga a calma,
A paz e alívio
Às dores da Alma.
Irani Martins
15 de agosto de 2012.

domingo, 4 de maio de 2014

PALAVRAS...TE FAZEM SÁBIO OU UM TOLO AOS OLHOS DE QUEM TE OUVE.


Palavras...
Depois de ditas...
pertencem ao mundo.
Cuidado ...
elas falam mais de você,
do que você sabe de si mesmo!
Te fazem sábio ou um tolo
 aos olhos de quem te ouve.

 
 AVISO DA LUA QUE MENSTRUA
Elisa Lucinda
Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso
 julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!